José Augusto Pimenta (1860-1940)
Funcionário público, historiador, escritor, jornalista, político
José Augusto Pimenta, que veio ao mundo no Barreiro em 26 de Novembro de 1860, será sempre citado como o autor da primeira obra sobre a história e as origens da localidade onde nasceu. Sua mãe e os seis irmãos também foram nados no Barreiro.
Transcreve-se parte do “Assento de Baptismo” do nosso evocado: “... E eu, o Presbítero José Vicente Ferreira, Prior Collado desta Freguesia, baptisei solemnemente e puz os Santos Oleos a uma criança do sexo masculino, a que dei o nome de José, que nasceu ... filho legitimo primeiro deste nome de Raphael Edesio Sebastião Maria Pimenta, Boticario, natural da freguesia de Nossa Senhora dos Anjos da cidade de Lisbôa, e de D. Antonia de Jesus Correa Pimenta, natural desta freguesia de Santa Cruz...”.
Aos 27 anos, José Augusto Pimenta desposou, em Lisboa, sua prima Suzana Casal da Cunha. Esta - a última descendente da bem antiga e conceituada família barreirense Casal - faleceu no Barreiro com 91 anos. O par não deixou descendência.
O nosso evocado - que residiu na Capital mais de 40 anos - não pôde seguir a sonhada carreira militar, dedicou-se então à função pública. Exerceu, por último, o cargo de Chefe da Secção de Tráfego da Alfândega de Lisboa.
No tocante à política, José Augusto Pimenta, monárquico liberal, militou no Partido Progressista. (Durante décadas, manteve enormes divergências políticas, e também incompatibilidade de feitios, com seu irmão João, do partido rival, o Regenerador. Recorde-se que João Dias Correia Pimenta - que sucedeu a seu pai como boticário da ainda hoje existente Farmácia Pimenta - foi o último Presidente da Câmara local do regime monárquico, tendo sido em seus mandatos que se encetou, e terminou, a construção do, naqueles tempos, magnífico edifício da Câmara Municipal).
José Augusto Pimenta, na sua longa vivência em Lisboa, fixou-se na Rua da Palma. Na Capital chegou a ocupar o cargo de Provedor da Irmandade dos Passos do Desterro. Vários anos trabalhou em Lisboa em problemas da Irmandade de N.ª Senhora do Rosário. Detinha a Cruz da Coroa Real da Prússia, de Guilherme II, e o grau de Cavaleiro da Real Ordem de Isabel a Católica, concedida por Afonso XIII.
Foi eleito deputado, por Lisboa, nas últimas eleições monárquicas, não tendo, porém, chegado a exercer o mandato devido à Revolução do 5 de Outubro de 1910. Com a implantação da República findou a sua intensa actividade política e administrativa.
Como se sabe, na I República, a Igreja de Santa Cruz, a Igreja Matriz do Barreiro, foi objecto de pilhagens legalizadas e transformada em armazém, palheiro, etc. Quando da restauração daquele templo durante a República seguinte, José Augusto Pimenta desenvolveu influências para a aquisição de valiosos donativos.
Ele sempre se deslocou com assiduidade ao Barreiro. Já na condição de reformado passava a temporada balnear na terra natal. Nunca se desligou da sua residência no 1° andar da Rua Aguiar n° 158, um prédio construído em terreno da família Casal. (O piso térreo albergou durante bons anos da primeira parte do sec. XX, o primeiro bar moderno do Barreiro, “A Ginjinha”, explorado pelo João “da Ginja”, o procurador do nosso evocado).
J. A. Pimenta nunca dissipou suas raízes e concepções monárquicas. Manifestou-se a favor da Ditadura Militar e do regime subsequente, chegando a afirmar, em discurso no Barreiro, que aqueles (citamos): “... permitiram a reconstrução das finanças públicas e puseram termo à lepra das revoluções periódicas e dos atentados pessoais”.
O comendador José Augusto Pimenta, de carácter e trato sempre afável, foi co-fundador da Associação dos Proprietários locais. Ainda participou na comissão barreirense das Comemorações Centenárias (Verão de 1940). Terminou a sua existência poucos meses depois, em Lisboa, no dia 30 de Novembro de 1940.
O publicista
Como dito atrás, a primeira obra histórica sobre as origens do Barreiro foi da autoria de José Augusto Pimenta, a Memória Histórica e Descriptiva da Villa do Barreiro, editada em 1886, ainda o autor residia no Barreiro e era solteiro.
Embora incompleta, a Monografia mereceu rasgados elogios quando do seu aparecimento. É certo que historiadores posteriores (como Armando S. Pais, que por fim chegou a estabelecer boa e frutuosa amizade com Pimenta) não tiveram dificuldades em apontar certas deficiências, mas é mais que justo salientar que aquela obra de investigação partiu praticamente do zero...
Desde Lisboa, J. A. Pimenta publicou, episodicamente, artigos sobre a história do Barreiro n´ O Eco do Barreiro e n´ O Barreiro, sendo colaborador mais assíduo n´ O Povo do Barreiro (1934-1936). Para publicações lisboetas assinou larga gama de textos, pelo menos, na Gazeta de Portugal, Mala da Europa, Semana Ilustrada, Gazeta da Noite, Branco e Negro e Correio da Noite, em especial sobre temas históricos, também em contos e em traduções. O nosso evocado era tio do Coronel Belisário Pimenta, ilustre historiador e publicista, que deu seu nome a relevante biblioteca em Coimbra.
Memória Histórica e Descriptiva da Villa do Barreiro (1886)
Eis um extracto dos três parágrafos iniciais da primeira obra histórica sobre a Vila do Barreiro, de que houve segunda edição. (Também respeitamos a ortografia):
“Na margem esquerda do Tejo, a nove kilometros proximamente ao sul de Lisboa, n´uma bem situada planicie, saudavel e lavada pelo norte, fica collocada a importante villa do Barreiro.
Não podemos determinar precisamente a data da sua fundação, mas o que nos afigura fóra de toda a duvida é que este sitio começou a ser povoado por pescadores vindos do Algarve que, attrahidos pela grande abundancia de peixe e marisco das aguas do Tejo, bem como pelo excellente mercado que lhes fornecia a cidade de Lisboa, vieram, pouco a pouco, desde muitos seculos, emigrando para estas paragens, onde se foram estabelecendo como actualmente sucede com o portinho d´Arrabida e tantos outros pontos da nossa costa.
O modo de fallar, bem como a accentuação da voz dos habitantes do Barreiro, tão differente do das outras povoações limitrophes, ainda as mais proximas, tem grande similhança com a dos povos do Algarve, bem como se nota ainda uma certa similhança de costumes” |