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Armando da Silva Pais (1914-1975)
Funcionário público, jornalista, monógrafo, associativista

Nota Introdutória – O escrito confinante a esta nota surgiu em 2004 como comunicação à Autarquia. Teve por título - após o nome e indicação dos anos de nascimento e óbito do biografado – “Resenha biográfica e algumas palavras sobre o Barreiro do seu tempo”. Reproduzimos aqui aquele texto, palavra a palavra, sendo apenas introduzidos, ou completados, alguns entretítulos. E salientadas determinadas palavras e expressões.  
O presente trabalho biográfico - saído naquele 2004 da pena do autor destes “Vinculados” - foi entregue ao pelouro da Cultura da Câmara do Barreiro. Em 3 de Abril do referido ano realizou-se, no Auditório da Biblioteca Municipal, concorrido evento integrado no projecto “Barreiro no Tempo – As monografias do Barreiro”. A CMB assinalava o 90° ano do nascimento de Armando da Silva Pais, o autor das quatro acrescidas obras monográficas alusivas ao Barreiro. Naquela sessão foi apresentada a reedição, em CD ROM, do primeiro dos volumes – intitulado “O Barreiro Antigo e Moderno – As outras terras do Concelho” - , que se encontrava esgotado desde havia muito. Como se escreveu na altura, o criador dos quatro tomos “desempenhou um papel fundamental na preservação e divulgação da história do Barreiro”.
No apêndice divulga-se agora uma (abrangente, mas longe de completa) colectânea respeitante à bibliografia, a artigos e crónicas, a estudos, empreendidos pelo monógrafo Armando da Silva Pais. Também são referidas conferências e alocuções proferidas e entrevistas concedidas pelo mesmo.

O pai, Francisco Rosa Paes

O pai de Armando Pais era natural de Beja, pertencente a conceituada família monárquica, bem situada. Jovem ainda, Francisco Rosa Paes rebelou-se, cortou praticamente com os laços familiares alentejanos. Em 1903 tentou a sorte na vila industrial do Barreiro, como tantos e tantos durante gerações. Casou-se com uma barreirense, tendo o primeiro filho nascido em 1905.
Durante a Monarquia pôs à prova, no Barreiro, a sua entranhada ideologia republicana. Abriu - com dois sócios ferroviários - um pequeno escritório em madeira, de cargas e descargas, no recinto da estação do Barreiro. A esposa foi Ana Isaura Rodrigues da Silva (fal. em 1955, com 72 anos) que pertencia, pelo lado paterno, aos Silvas “Patacas”, lavradienses. (Ainda existe no Lavradio o Beco do Patacas, do tempo do Rei D. Miguel. O primitivo “Patacas”, Manuel Rodrigues dos Santos e Silva, era trisavô de Armando Pais). Pelo lado materno, Ana Isaura era neta de João António Gomes “Bolacha” (1807-1876), alfaiate de profissão, Juiz Ordinário, Provedor da Misericórdia e, por vários períodos, Presidente da Câmara. Já são raros os que sabem qual era – na boca do Povo – o “Beco do Bolacha”, depois Travessa (o nome oficial viria a ser Travessa da Figueira, hoje por muitos ainda conhecida por “Travessa do Teatro-Cine”).
Francisco Rosa Paes veio a beneficiar de bens herdados por sua mulher. Eram provenientes da inicialmente avultada fortuna, depois dispersa pela descendência, do mencionado “Patacas”, que enriquecera, princípios do sec. 19, no comércio com o Brasil. Graças a vendas de terrenos no concelho do Barreiro, em Alhos Vedros e de salinas localizadas à entrada do Lavradio, Francisco Rosa Paes adquiriu um terreno considerável na Rua Miguel Bombarda, onde construiu um prédio, com largo quintal, para sua moradia, e nas traseiras um grande barracão com frente para a Rua Elias Garcia (este – em 2004 – ainda existe). Os proventos dessas vendas ainda possibilitaram o pagamento dos muito dispendiosos estudos militares, incluindo o curso de engenharia civil, do filho Fernando Eduardo da Silva Pais (1905-1981), e dos também onerosos hábitos de “menino-bem” do mesmo filho.  
Como se disse acima, Francisco Rosa Paes já não estava em posição de custear um curso superior ao filho Armando, nove anos mais jovem que o primogénito Fernando. (Algo curioso: o irmão mais velho é que escolheu o nome de Armando para o irmãozinho, que já não estava nos planos dos pais... Fernando viria a casar – a coincidência... – com uma Armanda!...).
Armando ia usando uma ou outra peça do vestuário que o irmão deixara anos antes, incluindo o traje de capa e batina. Quando ele concluiu o curso liceal já o pai Francisco se debatia, na realidade, com enormes dificuldades financeiras. Estas foram resultantes, primordialmente, das numerosas, quantas vezes longas greves ferroviárias dos CFSS durante toda a I República. Recorde-se que uma das greves durou 72 dias (!), a que rebentou em Julho de 1919. Nessa ocasião, a fome que naquele regime sempre atormentou o Barreiro, tornou-se flagelo. Já em Maio de 1917 sucederam, na vila, dois dias de assaltos e pilhagens a mercearias e a armazéns de mercadorias (em que a polícia não actuou). Não eram faltas temporárias de víveres, ou problemas com fornecimentos. Sucederam fomes cruéis e devastadoras.  
Durante muitos anos, a fachada da casa de Francisco Rosa Paes, na Rua Miguel Bombarda, apresentou pau de bandeira onde era içado o estandarte republicano nos dias próprios. (A alguns metros, no mesmo lado da rua, outro republicano histórico, João Anacleto da Silva, arvorava descomunal bandeira da República nos mesmos dias. Anacleto, ferroviário, também alentejano, foi Administrador do Concelho na I República).

A - Na I República, a anarquia social e administrativa

Francisco Rosa Paes já fora autarca (republicano) no Barreiro no tempo da Monarquia (regedor substituto da Freguesia de Santa Cruz em 1908). Na República foi eleito vogal em 1917 pelo Partido Evolucionista (de António José de Almeida). Num acto de posse da Câmara, está exarado em acta (2-1-1918) o protesto veemente de Rosa Paes que se insurgia “contra a maneira violenta do Governo (do futuro Presidente da República Sidónio Pais) que destituiu do lugar de Presidente da República o Exmo. Dr. Bernardino Machado”.  
Mas foi sol de pouca dura... A decepção provocada pelo regime republicano vigente chegar-lhe-ia poucos anos depois. Em 1923 Francisco Rosa Paes fundou, com outros republicanos, na maioria ferroviários, a secção barreirense do Partido Radical, que aspirava à tomada do poder pelos militares. Estes já eram tidos - pela maioria da população portuguesa - como a única força política que estaria apta a pôr termo aos desmandos e à desordem generalizada, à desagregação financeira, em que os mais prejudicados eram, como sempre, os mais carenciados. Também em órgãos políticos ligados ao Barreiro registaram-se as mais graves desavenças, mesmo ameaças de morte (pelo menos uma consta em acta camarária). Ocorreram não poucas vezes cenas de pancadaria nas comissões autárquicas, em eleições, dentro ou fora da Câmara. Os códigos não determinavam com clareza quem superentendia ao Município. Era o Presidente do Senado ou o Presidente da Comissão Executiva?
Os governos a alternarem-se continuamente em Lisboa (alguns duravam só dias) ajudavam à trágica situação. Portugal debatia-se em anarquia social e, tão grave como ela, era a anarquia administrativa. O golpe de estado – aguardado havia anos - veio em 1926 (28 de Maio). Note-se que, então, o Barreiro, “a despeito do seu carácter progressivo, não tinha nem água canalizada, nem esgotos, nem luz eléctrica”.  (Havia só um esgoto, já antigo, dos CFSS). Os militares vencedores procuraram para o Barreiro – como em toda a parte - republicanos históricos para encabeçar a primeira Comissão Administrativa da Câmara. Ambos teriam que ser totalmente alheios à ditadura parlamentar do Partido Democrático de Afonso Costa e António Maria da Silva e ainda à Maçonaria e ao seu braço armado Carbonária. Dois republicanos íntegros foram designados pela autodenominada Ditadura Militar e empossados em 24-7-1926: o prof. primário Joaquim Vicente França, para Presidente, e Francisco Rosa Paes, para Vice-Presidente com diversos pelouros. (Mais que uma vez, este iria assumir a presidência interina. Chegou a pertencer, por poucos anos, à União Nacional).

B – Na II República (o Estado Novo / Estado Social), o regime autocrático

Com Joaquim França e Rosa Paes começou, no Barreiro, a longa II República. Seria uma ditadura de elites universitárias, não totalitária, católica e conservadora, pragmática, antiliberal e antimarxista, apoiada nas cúpulas militares, ciosa da ordem e dos valores do passado, com um partido único mais de mediação do que de activação. O Regime – com o tempo, sempre mais anacrónico - tornou-se o último colonializador em África, o facto que mais impediu a renovação e que o levou à autodestruição.

Armando Pais, a carreira, a política

O primeiro emprego de Armando Pais foi na Câmara do Barreiro, como auxiliar de escrita, contratado em Junho de 1933 para a Repartição Técnica (vencimento de 300 escudos). Não tendo sido renovado o contrato com o engenheiro a quem ele estava agregado, Armando Pais foi dispensado pelo Presidente do Município ten. Bento da Silva Fernandes devido a contenção de custos (Fev. de 1935). No entretanto, graças ao manuseamento de velhos documentos municipais empilhados ao Deus-dará numa arrecadação da Câmara, adveio a Armando Pais o gosto pela história da sua terra natal. Em 1936, aos 22 anos, entrou (para sempre) ao serviço do Estado, sendo admitido no Grémio dos Armazenistas de Mercearia. Desde logo elogiou as funções deste órgão. No princípio da sua actividade na imprensa teceu encómios ao projecto económico e social do corporativismo, de raiz católica, baseado na Encíclica Rerum Novarum (1891), de Leão XIII, que aspirava a um maior equilíbrio, mais justo, e com menos atritos, entre o trabalho e o capital, entre os interesses dos trabalhadores e do patronato. (Na Itália – já muito industrializada no Norte e que se debatia com tremendos problemas sociais - Mussolini instituiu um sistema que entroncava na doutrina daquele Papa). Salazar e outros académicos, na mesma esteira, introduziram em Portugal, a partir de 1933, o oficialmente denominado corporativismo, surgindo gradualmente os grémios e os sindicatos corporativos (estes em detrimento dos sindicatos livres tradicionais), havendo as Federações e uma Câmara Corporativa, tudo sob a égide do Estado.
Em Julho de 1948 - quando Chefe de Serviços do Grémio - Armando Pais transitou para o Serviço da Intendência Geral dos Abastecimentos (onde foi Sub-Inspector), em que percorria muito o país de comboio. Por fim, a partir de 1965, assumiu a direcção da Zona de Setúbal da Inspecção Geral das Actividades Económicas (Sucessora da I.G.A.), com escritório naquela cidade. Em 20-2-1968 tomou posse do posto de Inspector da I.G.A.E.

 
 

O Barreiro industrial

O Barreiro, de intensa imigração laboral, impunha problemas de extrema acuidade naqueles tempos de ideologias extremadas. A vila operária, já nos finais do sec. 19 fora apodada na imprensa de ”Barcelona portuguesa” devido aos seus sindicatos dominados pelos aguerridos anarco-sindicalistas (Na Catalunha, recorde-se, era en tão muito forte o anarquismo...). O Barreiro passou a ser visto, gradualmente, como uma pequena “Moscovo portuguesa” a partir da segunda parte dos anos 20 do século seguinte, mas principalmente após o 18 de Janeiro de 1934 (neste golpe gorado foram detidos quase só anarquistas, tendo muitos deles sido encarcerados em Angra, passando alguns mais tarde – em especial os bombistas – para o Tarrafal, em Cabo Verde).  Naqueles tempos expandiram-se velozmente as crenças novas na ditadura do proletariado, difundidas de Lenine e depois de Estaline, ídolos de muitos. O Barreiro industrial tinha que ser terreno propício para essas ideias, mostrando-se proporcional a perseguição por parte do Regime. (Não deixa de ser curioso que o principal locutor dos programas em português, durante muitos anos, na Rádio Moscovo, fosse Francisco Ferreira, conhecido por ”Chico da CUF”, antigo operário da empresa CUF do Barreiro. Ele já actuara como comissário soviético em Espanha ainda antes do rebentamento da Guerra Civil no país vizinho em 1936. Por fim, “Chico da CUF” tornou-se dissidente dos ideais leninistas, regressando a Portugal no tempo do marcelismo).
Felizmente que o associativismo e o desporto, vividos com a maior dedicação no Barreiro, faziam atenuar um tanto os mais fortes antagonismos políticos e fricções sociais. A cultura operária local - sempre imbuída do desejo da auto-educação, já do tempo dos anarquistas e dos antigos socialistas - produziu frutos que só podiam encher de orgulho, até mais não, qualquer barreirense que se prezasse. Como era possível? As numerosas bibliotecas muito frequentadas, aquelas bandas de música e depois tais orquestras ligeiras e grupos musicais, a raínha da rádio, a primeira maestrina, um dos mais afamados fadistas. Do Barreiro veio o clube subcampeão nacional de futebol em 1930 e em 1934. Enquanto em Espanha rugia a Guerra Civil e ainda depois dela, disputavam-se no Barreiro torneios populares de futebol que em nada ficavam a dever aos melhores campeonatos oficiais. O Benfica sagrou-se campeão latino de futebol em 1950 com cinco atletas operários do Barreiro. Dois clubes da vila disputaram a I Divisão de futebol, mais de uma vintena de vezes cada um. Clubes locais foram campeões nacionais de basquete e de hóquei. E os muitos internacionais de futebol e de basquete? Tudo do Barreiro... E aquele conjunto inigualável de majestosas sedes sociais?... As colectividades faziam subir à cena espectáculos (teatro, revistas) de grande nível que podiam emparceirar com os melhores lá de fora. 
Era uma cultura - naquela dimensão - sui-generis no País. O Barreiro era sui-generis... (Hoje já não o é. Hoje é mais como tantas outras terras). Era sui-generis devido à tal cultura operária, mas não só... Também porque os trabalhadores das fábricas do Barreiro eram dos que melhor nível de vida usufruiam no país atrasado do sul da Europa chamado Portugal. (Isso graças, em especial, à CUF de Alfredo da Silva). Alunos com diplomas da Escola Alfredo da Silva eram dos primeiros a obter emprego em qualquer parte do país. Já nos anos 50 (passado o pior da ressaca das duas mortíferas guerras lá fora, que não podiam deixar de ter afectado Portugal) se viam muitos, muitos operários do Barreiro – mais os de meia idade ou jovens - gozando merecidas férias anuais aqui e ali, nem que fosse em tenda de campismo. Organizavam-se na vila numerosas excursões de autocarro pelo País fora (e, no Verão, também a Espanha, em especial a Sevilha). Quando o Barreirense foi jogar basquete contra o Real Madrid em 1958 deslocou-se à capital espanhola uma falange de apoio de seis autocarros, mais os muitos que foram de comboio ou em carros particulares, mesmo sabendo-se que os rubro-brancos iriam perder folgadamente. E os cinemas sempre cheios, e os recintos desportivos e as colectividades também? E os cultores das artes plásticas? E as exposições? E a imprensa, jornalistas, literatos locais? E os coleccionadores? Com um trabalhador do Barreiro podia-se trocar impressões sobre as “estrelas” do cinema estrangeiras (com nomes gostosamente pronunciados à portuguesa, porque a maioria não tivera possibilidade de aprender francês ou inglês...) ou sobre os grandes do teatro,  e com muitos até sobre as obras dos mestres da literatura e das artes. Quanto a Marx, a Lenine e aos “textos antifascistas” do “Avante”, só eram discutidos em recato e com camaradas de confiança... Muitos aspiravam a viver nas alegadas liberdade e democracia de um sistema do tipo soviético. Muitos aspiravam a uma democracia do tipo ocidental. Muitos não questionavam – por princípio - o Regime, em vista de determinados progressos (no nível de vida, na alfabetização, por exemplo) e da incapacidade democrática bem patenteada na ainda recente I República. No Barreiro vivia-se sob mão autoritária, em ditadura e censura mais severas que no resto do País. Isso ninguém o poderá contestar. Era proporcional. Contudo, quantas cidades e vilas por esse Portugal fora aspiravam, a partir dos anos 50, a um nível de vida semelhante ao do Barreiro e a obter os seus sucessos?

Armando Pais, republicano, nacionalista, cidadão

Armando Pais, de ideologia republicana (que sempre foi grande admirador – tal como o pai – do líder político António José de Almeida), cedo sentiu Oliveira Salazar como estadista necessário para dar novo rumo à Nação doente. Perdeu a confiança em muitos, não em Salazar. (Muitos servidores houve do regime vindo do 28 de Maio que o decepcionaram amargamente...). Segundo Armando Pais, a Pátria estiolara desde 1890 até ao princípio dos anos 30 “em paixões políticas exaltadas, rancores e ódios”,  nada se fazendo de vulto para elevar o nível de vida de camadas mais pobres. Na I República sucederam crimes políticos dos mais hediondos. Quantas vezes o poder era a rua. (Vem aqui a talhe de foice um episódio vivido por Fernando, o irmão de Armando Pais. Uma vez, de volta do Liceu Passos Manuel, assistiu, no Arsenal da Marinha, a uma cena que muito o marcou, quando a populaça pulava de alegria, sobre o cadáver do primeiro-ministro António Granjo, assassinado havia já horas com heróis republicanos durante a noite sinistra do 19 de Outubro de 1921. O “crime” de António Granjo: quisera reformular a lei das rendas de casa).
Na I República – há que não esquecer – também houve deportados, foram inúmeras as vítimas mortais causadas por forças policiais em greves ou nas prisões, ou por revolucionários em ataques bombistas ou assaltos e em outros diferendos sociais e políticos. Com a instabilidade sempre a agudizar-se, a polícia política da I República foi endurecendo. Essa polícia foi muito mal afamada como precursora da também mal afamada PVDE/PIDE.
Até um Presidente da República - um homem exemplo de patriotismo e correcção – resignou e deixou o País anunciando não mais voltar. Não queria mais viver nos ódios, na intrigalhada e na corrupção. Foi ele o algarvio Teixeira Gomes, que – cumprindo a sua promessa - morreu anos depois na Argélia francesa. O problema da I República não foi a falta de vultos insignes, houve-os, e muitos. O problema foi o extremismo à solta - por vezes instigado pelas próprias cúpulas - que provocou o descalabro das instituições, também das novas. 
O autor destas linhas recorda-se perfeitamente que, ainda em meados dos anos 50, a palavra “república” era muito utilizada na linguagem popular como sinónimo de “algazarra”, “confusão”, “balbúrdia”. Por exemplo, era comum uma mãe, de qualquer classe social, querer pôr os filhos miúdos na ordem dizendo algo como: “Estejam quietos, não façam barulho, isto aqui não é república nenhuma”. Escusado será explicar a origem de tal terminologia.
Armando Pais, logo após o liceu, sentiu-se impelido a participar – como se dizia e ele escrevia – na Revolução Nacional. Só um Governo de mão firme, nacionalista, poderia defender o país do caos e dos enormes perigos dos totalitarismos que ameaçavam lá de fora, da Alemanha nazi e da União Soviética, e que tinham bastantes seguidores cá dentro. Havia que manter a neutralidade e, assim, a não beligerância.
Viu finalmente o seu Barreiro progredir depois de décadas de lutas ideológicas totalmente infrutíferas. Não se cansou de enaltecer na imprensa todas as grandes realizações locais, em especial as dos anos 30 e 40. Note-se que a I República praticamente só deixou no Barreiro o Mercado Central (mas sem cobertura!..). Excepção feita à ligação curta do mercado ao Poço 16, nem um metro de colectores ficou para a posteridade. No que respeita a obras de saneamento, de pavimentação de ruas, de instalações hospitalares ou escolares, tudo nicles... Nada mais, a não ser o pequeno coreto dos Franceses, e este mesmo assim também com oferendas do Povo... Armando Pais prestou, logicamente, o seu preito de homenagem, na imprensa, ao obreiro Duarte Pacheco (que conheceu enquanto jornalista), em particular pelo muito que ele fez em prol do progresso do Barreiro: a muralha marginal com o enorme aterro, as (novas) Oficinas Gerais da CP (que ao contrário do que se previa não saíram do Barreiro), a cobertura metálica do mercado, o lavadouro público, a Avenida da Estação, em suma, uma catadupa de realizações em menos de meia dúzia de anos. Depois a Escola da Verderena, o arranque decisivo para as redes de colectores e esgotos, as pavimentações, uma célere electrificação e – finalmente – a captação e a canalização da água a partir do Coina. Depois o Parque Central, os bairros populares, a modernização das freguesias rurais. Para muitos - que nada de semelhante tinham presenciado durante décadas – foi um maná. O Barreiro tinha sido uma localidade bastante menosprezada e temida pelos últimos governos da Monarquia e pela I República. Sublinhe-se que esta situação pouco se alterara com a Ditadura Militar (1926/1933), pois ainda não se chegara ao equilíbrio das finanças.
Armando Pais - que ficou isento do serviço militar - aderiu na primeira hora à Legião Portuguesa (1936), organização que surgiu dias após a eclosão da (sanguinolenta) Guerra Civil de Espanha. Tornou-se um dos Comandantes de Lança do Barreiro. Foi, por várias vezes, de 1940 a 1946, Comandante (sempre interino) do Terço Independente local, durante os períodos curtos de rotação dos oficiais de carreira. Serviu a Mocidade Portuguesa como primeiro Director de Ala do Centro Extra-Escolar local (1939/41).
De vogal substituto Armando Pais ascendeu a vereador efectivo da Câmara do Barreiro no pelouro do fomento (1945/46). A despeito dos convites assíduos por parte de elementos do Regime nunca se filiou na União Nacional, prescindindo, em princípio, de vantagens. Tomou posse em 12-12-1967 do cargo de Vice-Presidente da Câmara do Barreiro. Chegou a assumir a presidência do Município, como Vice-Presidente, de 19 de Fev. a 2 de Abril de 1969. Pediu a exoneração em Jan. de 1970, voltando ao seu posto em Setúbal.
O seu nome ficou ligado, no Barreiro, aos esforços pela criação - entre outros melhoramentos - da Escola Industrial e Comercial (que recebeu o nome de Alfredo da Silva, 1947), da Comarca (1963) e da Conservatória do Registo Predial e Comercial (1964) que o Poder Central, infeliz e incompreensivelmente, teimava em não instituir na sua terra.
O biografado sentia grande satisfação e orgulho por ter contribuído não só para que a Guerra Civil de Espanha não tivesse alastrado a Portugal, mas também a II Guerra Mundial, que teriam entre nós consequências devastadoras bem fáceis de imaginar. Desde sempre, Armando Pais procurou interferir, num sentido cívico, moderador, junto dos poderes locais, em especial perante a Guarda Nacional Republicana, instituição que não lhe merecia simpatia. Verberou os seus excessos. Escreveu em notas privadas: “Estes oficiais da G.N.R. deram sempre muito que falar no Barreiro, que os aturou até à saturação”. Realmente, a G.N.R. tratava o Barreiro como se seu feudo fosse, desde as greves de Julho de 1943. A vila manteve-se como que em estado de sítio até 1974. Aquela incrível situação de os guardas republicanos estarem sempre virados para os espectadores nas provas desportivas (sem excepção nos jogos de futebol) ultrapassava as raias da idiotice. Por vezes, uma bola batia nas costas, na nuca ou na cabeça de um guarda, caindo-lhe o capacete, o que provocava a hilariedade geral... Aquela medida cretina só estava em vigor no Barreiro! E isto desde Junho de 1951, quando no final de um tristemente famoso jogo de futebol Barreirense-Lusitano de Évora a invasão eufórica, expontânea, dos adeptos do Barreirense pela subida à I Divisão foi desfeita à coronhada por ordem de um tenente ”lateiro”  de muito má memória.
Quando Fernando Silva Pais passou – mais em teoria - a superintender a Polícia Política, o irmão Armando também procurou intervir – telefónica e até mesmo pessoalmente – a favor de presos políticos barreirenses, por vezes com algum sucesso (desde que o processo-acusação não estivesse concluído). O velho “jeito” português – pensa-se – é mesmo eterno. O simples facto de ser irmão dum sr. Director-Geral, tem boas hipóteses de ajudar a mover qualquer coisa....
Nas eleições de 1958, Armando Pais – aspirando a uma democratização da Situação - votou em Humberto Delgado (que conhecera nos tempos da Legião, aliás também como Craveiro Lopes, que ele chegou a receber no Terço local). Armando Pais saudou a chamada primavera marcelista, que ele conotava com um abrandamento democrático do regime. Saudou medidas sociais dos governos de Marcelo Caetano, que os de Salazar tinham incompreensivelmente descurado. Na questão do Ultramar (desde 1961) tomou a única posição que um declarado nacionalista da sua escola poderia tomar, que era pela integridade da Nação secular pluricontinental. Para mais – ele sempre assim pensou - estava-se em plena guerra fria, em que mediam forças os USA e a União Soviética; os americanos sempre interessados em proteger os seus interesses económicos, os soviéticos combatendo também pela influência ideológica. Outra atitude seria, para Armando Pais, impensável, como que uma traição à Pátria. Fora uma posição semelhante, por exemplo, à que António José de Almeida tomara na I Guerra Mundial, que levou este tribuno a aliar-se, na chamada “União Sagrada”, a Afonso Costa, pessoa que ele detestava. A defesa das Colónias serviu então de pretexto para a (escusada e fatídica) intervenção de Portugal nos campos da Flandres em que desde Fev. de 1917 até Nov. de 1918, o Corpo Expedicionário Português sofreu – segundo a historiografia moderna – mais de 20.000 mortos, incluindo os gaseados. Esta hecatombe, em apenas 22 meses de hostilidades (!), foi sempre minimizada ou “heroificada”, na I e também na II República....
Armando Pais não escondeu a sua tremenda insatisfação por, em 1962, no salazarismo, o irmão Fernando se ter sentido compelido, depois de várias recusas, a aceitar a comissão de serviço nada invejável de Director-Geral da PIDE, depois DGS. “Aquele gajo é doido!...” – exclamou ele a alguns mais chegados. Mas quando o Fernando foi aprisionado em 1974 em Caxias, Armando – já marcado pela doença -  não deixou de procurar, na Biblioteca Nacional, textos da imprensa antiga destinados à defesa do irmão.
Assistência social – Provedor da Misericórdia
Armando Pais exerceu actividade muito meritória na assistência social. A partir de 1939 pertenceu quase onze anos consecutivos à Mesa da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro. Também foi secretário da Comissão Municipal de Assistência (era-o em 1946, quando inaugurado o novo edifício da Sopa dos Pobres e Desempregados). Como Provedor da Misericórdia de 1945 a 1951 lançou os primeiros Cortejos de Oferendas (1945, 1947 e 1950), fez libertar judicialmente bens doados por beneméritos e geriu-os com sucesso. Providenciou obras de ampliação e renovação de envergadura até então nunca vistas naquela Santa Casa (o Barreiro ainda só possuia,  desde 1927, o pequeno hospital da Misericórdia, então na Praça de Santa Cruz). Nesta veneranda Casa “faltava quase tudo, senão praticamente tudo”
No período de Armando Pais como Provedor instalaram-se lá, por exemplo, novas enfermarias para os dois sexos (incluindo para parturientes). Abriu-se o primeiro gabinete de Raios X do Barreiro (1947) e um novo serviço de Agentes Físicos (1949), pelo que em muitos casos os pacientes passaram a não ter necessidade de deslocar-se a Lisboa. Libertaram-se muitos bens penhorados para devolução a humildes. Até foram adquiridas as primeiras cadeiras para incapacitados. A intensa actividade das Provedorias a que Armando Pais presidiu (1945/50) encontra-se descrita em relatórios anuais abrangentes com os nomes de todos os seus prestimosos colaboradores e listas dos Irmãos e Irmãs.
Em 1950 - muito assoberbado pela vida profissional - Armando Pais sugeriu às entidades superiores o nome de José Francisco da Costa Neves para seu sucessor como Provedor da Misericórdia (existe a prova escrita), que – convidado - aceitou. Havia pouco, o Governo programara um hospital sub-regional para o Barreiro.  A figura de Costa Neves foi uma escolha “em cheio” para o grande desafio que se punha. A memória deste grande barreirense tem sido muito “ortodoxamente” ignorada. (A razão: pertenceu à União Nacional!). Uma tremenda injustiça... O Barreiro (e os Correios Nacionais) muito lhe ficaram a dever no capítulo da assistência social. Costa Neves foi, por assim dizer, o pai do Hospital local inaugurado em 1959.

 
 

APÊNDICE

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