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Armando da Silva Pais (1914-1975)
Funcionário público, jornalista, monógrafo, associativista

Nota Introdutória – O escrito confinante a esta nota surgiu em 2004 como comunicação à Autarquia. Teve por título - após o nome e indicação dos anos de nascimento e óbito do biografado – “Resenha biográfica e algumas palavras sobre o Barreiro do seu tempo”. Reproduzimos aqui aquele texto, palavra a palavra, sendo apenas introduzidos, ou completados, alguns entretítulos. E salientadas determinadas palavras e expressões.  
O presente trabalho biográfico - saído naquele 2004 da pena do autor destes “Vinculados” - foi entregue ao pelouro da Cultura da Câmara do Barreiro. Em 3 de Abril do referido ano realizou-se, no Auditório da Biblioteca Municipal, concorrido evento integrado no projecto “Barreiro no Tempo – As monografias do Barreiro”. A CMB assinalava o 90° ano do nascimento de Armando da Silva Pais, o autor das quatro acrescidas obras monográficas alusivas ao Barreiro. Naquela sessão foi apresentada a reedição, em CD ROM, do primeiro dos volumes – intitulado “O Barreiro Antigo e Moderno – As outras terras do Concelho” - , que se encontrava esgotado desde havia muito. Como se escreveu na altura, o criador dos quatro tomos “desempenhou um papel fundamental na preservação e divulgação da história do Barreiro”.
No apêndice divulga-se agora uma (abrangente, mas longe de completa) colectânea respeitante à bibliografia, a artigos e crónicas, a estudos, empreendidos pelo monógrafo Armando da Silva Pais. Também são referidas conferências e alocuções proferidas e entrevistas concedidas pelo mesmo.

 
     
 
 
     

Armando da Silva Pais nasceu no Barreiro a 31 de Março de 1914 na casa paterna (Rua Miguel Bombarda n° 16, depois n° 24, prédio demolido em 1961). Residiu sempre na terra natal. Fez a escola primária na Conde Ferreira e frequentou o Liceu Passos Manuel (ali completando o 7° ano). Queria seguir os estudos de medicina. Porém, seu pai, Francisco António Rosa Paes (1878–1942) já não tinha possibilidades de satisfazer-lhe a aspiração. Para avaliar melhor o percurso e o pensamento de Armando Pais é necessário referir o seu pai, figura  autárquica e política local antes e depois do 28 de Maio de 1926.

O pai, Francisco Rosa Paes

 
 

O pai de Armando Pais era natural de Beja, pertencente a conceituada família monárquica, bem situada. Jovem ainda, Francisco Rosa Paes rebelou-se, cortou praticamente com os laços familiares alentejanos. Em 1903 tentou a sorte na vila industrial do Barreiro, como tantos e tantos durante gerações. Casou-se com uma barreirense, tendo o primeiro filho nascido em 1905.
Durante a Monarquia pôs à prova, no Barreiro, a sua entranhada ideologia republicana. Abriu - com dois sócios ferroviários - um pequeno escritório em madeira, de cargas e descargas, no recinto da estação do Barreiro. A esposa foi Ana Isaura Rodrigues da Silva (fal. em 1955, com 72 anos) que pertencia, pelo lado paterno, aos Silvas “Patacas”, lavradienses. (Ainda existe no Lavradio o Beco do Patacas, do tempo do Rei D. Miguel. O primitivo “Patacas”, Manuel Rodrigues dos Santos e Silva, era trisavô de Armando Pais). Pelo lado materno, Ana Isaura era neta de João António Gomes “Bolacha” (1807-1876), alfaiate de profissão, Juiz Ordinário, Provedor da Misericórdia e, por vários períodos, Presidente da Câmara. Já são raros os que sabem qual era – na boca do Povo – o “Beco do Bolacha”, depois Travessa (o nome oficial viria a ser Travessa da Figueira, hoje por muitos ainda conhecida por “Travessa do Teatro-Cine”).

 

J. ALFREDO GALLIS

JOSÉ PICOITO

MIGUEL CORREIA

ALFREDO FIGUEIRAS

ALFREDO ZARCOS

DOMINGOS SILVA

J. AUGUSTO PIMENTA

LEONÍDIO MARTINS

NATÉRCIA COUTO

M. ESTER FIGUEIRA

A.C. DE VASCONCELOS

MÁRIO SOLANO “LÁ-VAI”

DUPONT DE SOUSA

HORTA RODRIGUES

LADISLAU BATALHA

FELIZARDO BURACA

RAFAEL PIMENTA

CARLOS COSTA

ARTUR BAETA

MARIA NEVES DA SILVEIRA

Pe SANTOS COSTA

JOAQUIM MADUREIRA

JÚLIO ARAÚJO

JOAQUIM MADUREIRA

JÚLIO ARAÚJO

ARMANDO DA SILVA PAIS

   
     
 
Francisco Rosa Paes veio a beneficiar de bens herdados por sua mulher. Eram provenientes da inicialmente avultada fortuna, depois dispersa pela descendência, do mencionado “Patacas”, que enriquecera, princípios do sec. 19, no comércio com o Brasil. Graças a vendas de terrenos no concelho do Barreiro, em Alhos Vedros e de salinas localizadas à entrada do Lavradio, Francisco Rosa Paes adquiriu um terreno considerável na Rua Miguel Bombarda, onde construiu um prédio, com largo quintal, para sua moradia, e nas traseiras um grande barracão com frente para a Rua Elias Garcia (este – em 2004 – ainda existe). Os proventos dessas vendas ainda possibilitaram o pagamento dos muito dispendiosos estudos militares, incluindo o curso de engenharia civil, do filho Fernando Eduardo da Silva Pais (1905-1981), e dos também onerosos hábitos de “menino-bem” do mesmo filho.  
Como se disse acima, Francisco Rosa Paes já não estava em posição de custear um curso superior ao filho Armando, nove anos mais jovem que o primogénito Fernando. (Algo curioso: o irmão mais velho é que escolheu o nome de Armando para o irmãozinho, que já não estava nos planos dos pais... Fernando viria a casar – a coincidência... – com uma Armanda!...).
Armando ia usando uma ou outra peça do vestuário que o irmão deixara anos antes, incluindo o traje de capa e batina. Quando ele concluiu o curso liceal já o pai Francisco se debatia, na realidade, com enormes dificuldades financeiras. Estas foram resultantes, primordialmente, das numerosas, quantas vezes longas greves ferroviárias dos CFSS durante toda a I República. Recorde-se que uma das greves durou 72 dias (!), a que rebentou em Julho de 1919. Nessa ocasião, a fome que naquele regime sempre atormentou o Barreiro, tornou-se flagelo. Já em Maio de 1917 sucederam, na vila, dois dias de assaltos e pilhagens a mercearias e a armazéns de mercadorias (em que a polícia não actuou). Não eram faltas temporárias de víveres, ou problemas com fornecimentos. Sucederam fomes cruéis e devastadoras.  
Durante muitos anos, a fachada da casa de Francisco Rosa Paes, na Rua Miguel Bombarda, apresentou pau de bandeira onde era içado o estandarte republicano nos dias próprios. (A alguns metros, no mesmo lado da rua, outro republicano histórico, João Anacleto da Silva, arvorava descomunal bandeira da República nos mesmos dias. Anacleto, ferroviário, também alentejano, foi Administrador do Concelho na I República).
 
   
   
 
   

A - Na I República, a anarquia social e administrativa

Francisco Rosa Paes já fora autarca (republicano) no Barreiro no tempo da Monarquia (regedor substituto da Freguesia de Santa Cruz em 1908). Na República foi eleito vogal em 1917 pelo Partido Evolucionista (de António José de Almeida). Num acto de posse da Câmara, está exarado em acta (2-1-1918) o protesto veemente de Rosa Paes que se insurgia “contra a maneira violenta do Governo (do futuro Presidente da República Sidónio Pais) que destituiu do lugar de Presidente da República o Exmo. Dr. Bernardino Machado”.  
Mas foi sol de pouca dura... A decepção provocada pelo regime republicano vigente chegar-lhe-ia poucos anos depois. Em 1923 Francisco Rosa Paes fundou, com outros republicanos, na maioria ferroviários, a secção barreirense do Partido Radical, que aspirava à tomada do poder pelos militares. Estes já eram tidos - pela maioria da população portuguesa - como a única força política que estaria apta a pôr termo aos desmandos e à desordem generalizada, à desagregação financeira, em que os mais prejudicados eram, como sempre, os mais carenciados. Também em órgãos políticos ligados ao Barreiro registaram-se as mais graves desavenças, mesmo ameaças de morte (pelo menos uma consta em acta camarária). Ocorreram não poucas vezes cenas de pancadaria nas comissões autárquicas, em eleições, dentro ou fora da Câmara. Os códigos não determinavam com clareza quem superentendia ao Município. Era o Presidente do Senado ou o Presidente da Comissão Executiva?
Os governos a alternarem-se continuamente em Lisboa (alguns duravam só dias) ajudavam à trágica situação. Portugal debatia-se em anarquia social e, tão grave como ela, era a anarquia administrativa. O golpe de estado – aguardado havia anos - veio em 1926 (28 de Maio). Note-se que, então, o Barreiro, “a despeito do seu carácter progressivo, não tinha nem água canalizada, nem esgotos, nem luz eléctrica”.  (Havia só um esgoto, já antigo, dos CFSS). Os militares vencedores procuraram para o Barreiro – como em toda a parte - republicanos históricos para encabeçar a primeira Comissão Administrativa da Câmara. Ambos teriam que ser totalmente alheios à ditadura parlamentar do Partido Democrático de Afonso Costa e António Maria da Silva e ainda à Maçonaria e ao seu braço armado Carbonária. Dois republicanos íntegros foram designados pela autodenominada Ditadura Militar e empossados em 24-7-1926: o prof. primário Joaquim Vicente França, para Presidente, e Francisco Rosa Paes, para Vice-Presidente com diversos pelouros. (Mais que uma vez, este iria assumir a presidência interina. Chegou a pertencer, por poucos anos, à União Nacional).

B – Na II República (o Estado Novo / Estado Social), o regime autocrático

 

Com Joaquim França e Rosa Paes começou, no Barreiro, a longa II República. Seria uma ditadura de elites universitárias, não totalitária, católica e conservadora, pragmática, antiliberal e antimarxista, apoiada nas cúpulas militares, ciosa da ordem e dos valores do passado, com um partido único mais de mediação do que de activação. O Regime – com o tempo, sempre mais anacrónico - tornou-se o último colonializador em África, o facto que mais impediu a renovação e que o levou à autodestruição.

 
   
   
   
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