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Armando Pais, republicano, nacionalista, cidadão
Armando Pais, de ideologia republicana (que sempre foi grande admirador – tal como o pai – do líder político António José de Almeida), cedo sentiu Oliveira Salazar como estadista necessário para dar novo rumo à Nação doente. Perdeu a confiança em muitos, não em Salazar. (Muitos servidores houve do regime vindo do 28 de Maio que o decepcionaram amargamente...). Segundo Armando Pais, a Pátria estiolara desde 1890 até ao princípio dos anos 30 “em paixões políticas exaltadas, rancores e ódios”, nada se fazendo de vulto para elevar o nível de vida de camadas mais pobres. Na I República sucederam crimes políticos dos mais hediondos. Quantas vezes o poder era a rua. (Vem aqui a talhe de foice um episódio vivido por Fernando, o irmão de Armando Pais. Uma vez, de volta do Liceu Passos Manuel, assistiu, no Arsenal da Marinha, a uma cena que muito o marcou, quando a populaça pulava de alegria, sobre o cadáver do primeiro-ministro António Granjo, assassinado havia já horas com heróis republicanos durante a noite sinistra do 19 de Outubro de 1921. O “crime” de António Granjo: quisera reformular a lei das rendas de casa).
Na I República – há que não esquecer – também houve deportados, foram inúmeras as vítimas mortais causadas por forças policiais em greves ou nas prisões, ou por revolucionários em ataques bombistas ou assaltos e em outros diferendos sociais e políticos. Com a instabilidade sempre a agudizar-se, a polícia política da I República foi endurecendo. Essa polícia foi muito mal afamada como precursora da também mal afamada PVDE/PIDE.
Até um Presidente da República - um homem exemplo de patriotismo e correcção – resignou e deixou o País anunciando não mais voltar. Não queria mais viver nos ódios, na intrigalhada e na corrupção. Foi ele o algarvio Teixeira Gomes, que – cumprindo a sua promessa - morreu anos depois na Argélia francesa. O problema da I República não foi a falta de vultos insignes, houve-os, e muitos. O problema foi o extremismo à solta - por vezes instigado pelas próprias cúpulas - que provocou o descalabro das instituições, também das novas.
O autor destas linhas recorda-se perfeitamente que, ainda em meados dos anos 50, a palavra “república” era muito utilizada na linguagem popular como sinónimo de “algazarra”, “confusão”, “balbúrdia”. Por exemplo, era comum uma mãe, de qualquer classe social, querer pôr os filhos miúdos na ordem dizendo algo como: “Estejam quietos, não façam barulho, isto aqui não é república nenhuma”. Escusado será explicar a origem de tal terminologia.
Armando Pais, logo após o liceu, sentiu-se impelido a participar – como se dizia e ele escrevia – na Revolução Nacional. Só um Governo de mão firme, nacionalista, poderia defender o país do caos e dos enormes perigos dos totalitarismos que ameaçavam lá de fora, da Alemanha nazi e da União Soviética, e que tinham bastantes seguidores cá dentro. Havia que manter a neutralidade e, assim, a não beligerância.
Viu finalmente o seu Barreiro progredir depois de décadas de lutas ideológicas totalmente infrutíferas. Não se cansou de enaltecer na imprensa todas as grandes realizações locais, em especial as dos anos 30 e 40. Note-se que a I República praticamente só deixou no Barreiro o Mercado Central (mas sem cobertura!..). Excepção feita à ligação curta do mercado ao Poço 16, nem um metro de colectores ficou para a posteridade. No que respeita a obras de saneamento, de pavimentação de ruas, de instalações hospitalares ou escolares, tudo nicles... Nada mais, a não ser o pequeno coreto dos Franceses, e este mesmo assim também com oferendas do Povo... Armando Pais prestou, logicamente, o seu preito de homenagem, na imprensa, ao obreiro Duarte Pacheco (que conheceu enquanto jornalista), em particular pelo muito que ele fez em prol do progresso do Barreiro: a muralha marginal com o enorme aterro, as (novas) Oficinas Gerais da CP (que ao contrário do que se previa não saíram do Barreiro), a cobertura metálica do mercado, o lavadouro público, a Avenida da Estação, em suma, uma catadupa de realizações em menos de meia dúzia de anos. Depois a Escola da Verderena, o arranque decisivo para as redes de colectores e esgotos, as pavimentações, uma célere electrificação e – finalmente – a captação e a canalização da água a partir do Coina. Depois o Parque Central, os bairros populares, a modernização das freguesias rurais. Para muitos - que nada de semelhante tinham presenciado durante décadas – foi um maná. O Barreiro tinha sido uma localidade bastante menosprezada e temida pelos últimos governos da Monarquia e pela I República. Sublinhe-se que esta situação pouco se alterara com a Ditadura Militar (1926/1933), pois ainda não se chegara ao equilíbrio das finanças.
Armando Pais - que ficou isento do serviço militar - aderiu na primeira hora à Legião Portuguesa (1936), organização que surgiu dias após a eclosão da (sanguinolenta) Guerra Civil de Espanha. Tornou-se um dos Comandantes de Lança do Barreiro. Foi, por várias vezes, de 1940 a 1946, Comandante (sempre interino) do Terço Independente local, durante os períodos curtos de rotação dos oficiais de carreira. Serviu a Mocidade Portuguesa como primeiro Director de Ala do Centro Extra-Escolar local (1939/41).
De vogal substituto Armando Pais ascendeu a vereador efectivo da Câmara do Barreiro no pelouro do fomento (1945/46). A despeito dos convites assíduos por parte de elementos do Regime nunca se filiou na União Nacional, prescindindo, em princípio, de vantagens. Tomou posse em 12-12-1967 do cargo de Vice-Presidente da Câmara do Barreiro. Chegou a assumir a presidência do Município, como Vice-Presidente, de 19 de Fev. a 2 de Abril de 1969. Pediu a exoneração em Jan. de 1970, voltando ao seu posto em Setúbal.
O seu nome ficou ligado, no Barreiro, aos esforços pela criação - entre outros melhoramentos - da Escola Industrial e Comercial (que recebeu o nome de Alfredo da Silva, 1947), da Comarca (1963) e da Conservatória do Registo Predial e Comercial (1964) que o Poder Central, infeliz e incompreensivelmente, teimava em não instituir na sua terra.
O biografado sentia grande satisfação e orgulho por ter contribuído não só para que a Guerra Civil de Espanha não tivesse alastrado a Portugal, mas também a II Guerra Mundial, que teriam entre nós consequências devastadoras bem fáceis de imaginar. Desde sempre, Armando Pais procurou interferir, num sentido cívico, moderador, junto dos poderes locais, em especial perante a Guarda Nacional Republicana, instituição que não lhe merecia simpatia. Verberou os seus excessos. Escreveu em notas privadas: “Estes oficiais da G.N.R. deram sempre muito que falar no Barreiro, que os aturou até à saturação”. Realmente, a G.N.R. tratava o Barreiro como se seu feudo fosse, desde as greves de Julho de 1943. A vila manteve-se como que em estado de sítio até 1974. Aquela incrível situação de os guardas republicanos estarem sempre virados para os espectadores nas provas desportivas (sem excepção nos jogos de futebol) ultrapassava as raias da idiotice. Por vezes, uma bola batia nas costas, na nuca ou na cabeça de um guarda, caindo-lhe o capacete, o que provocava a hilariedade geral... Aquela medida cretina só estava em vigor no Barreiro! E isto desde Junho de 1951, quando no final de um tristemente famoso jogo de futebol Barreirense-Lusitano de Évora a invasão eufórica, expontânea, dos adeptos do Barreirense pela subida à I Divisão foi desfeita à coronhada por ordem de um tenente ”lateiro” de muito má memória.
Quando Fernando Silva Pais passou – mais em teoria - a superintender a Polícia Política, o irmão Armando também procurou intervir – telefónica e até mesmo pessoalmente – a favor de presos políticos barreirenses, por vezes com algum sucesso (desde que o processo-acusação não estivesse concluído). O velho “jeito” português – pensa-se – é mesmo eterno. O simples facto de ser irmão dum sr. Director-Geral, tem boas hipóteses de ajudar a mover qualquer coisa....
Nas eleições de 1958, Armando Pais – aspirando a uma democratização da Situação - votou em Humberto Delgado (que conhecera nos tempos da Legião, aliás também como Craveiro Lopes, que ele chegou a receber no Terço local). Armando Pais saudou a chamada primavera marcelista, que ele conotava com um abrandamento democrático do regime. Saudou medidas sociais dos governos de Marcelo Caetano, que os de Salazar tinham incompreensivelmente descurado. Na questão do Ultramar (desde 1961) tomou a única posição que um declarado nacionalista da sua escola poderia tomar, que era pela integridade da Nação secular pluricontinental. Para mais – ele sempre assim pensou - estava-se em plena guerra fria, em que mediam forças os USA e a União Soviética; os americanos sempre interessados em proteger os seus interesses económicos, os soviéticos combatendo também pela influência ideológica. Outra atitude seria, para Armando Pais, impensável, como que uma traição à Pátria. Fora uma posição semelhante, por exemplo, à que António José de Almeida tomara na I Guerra Mundial, que levou este tribuno a aliar-se, na chamada “União Sagrada”, a Afonso Costa, pessoa que ele detestava. A defesa das Colónias serviu então de pretexto para a (escusada e fatídica) intervenção de Portugal nos campos da Flandres em que desde Fev. de 1917 até Nov. de 1918, o Corpo Expedicionário Português sofreu – segundo a historiografia moderna – mais de 20.000 mortos, incluindo os gaseados. Esta hecatombe, em apenas 22 meses de hostilidades (!), foi sempre minimizada ou “heroificada”, na I e também na II República....
Armando Pais não escondeu a sua tremenda insatisfação por, em 1962, no salazarismo, o irmão Fernando se ter sentido compelido, depois de várias recusas, a aceitar a comissão de serviço nada invejável de Director-Geral da PIDE, depois DGS. “Aquele gajo é doido!...” – exclamou ele a alguns mais chegados. Mas quando o Fernando foi aprisionado em 1974 em Caxias, Armando – já marcado pela doença - não deixou de procurar, na Biblioteca Nacional, textos da imprensa antiga destinados à defesa do irmão. |
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