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Manuel Gualdino “do comboiozinho” (1865 – 1914)
Ferroviário, trabalhador de oficina, artífice industrial |
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Um dia, ainda nos tempos da Monarquia, o operário barreirense Manuel Gualdino teve um sonho lindo: construir ele próprio uma locomotiva miniatura que rodasse com passageiros na sua terra natal. Colegas seus aderiram à ideia. Um industrial corticeiro local, de origem britânica - que muito apreciava as invulgares qualidades daquele trabalhador da sua fábrica - adiantou fundos para a aquisição de material.
E a coisa consumou-se... A locomotiva era de dimensões seis vezes inferiores às de um comboio normal, daqueles que havia já décadas se deslocavam entre o Barreiro e os Algarves. Nas festas da vila do Barreiro de 1906 andou o veículo às voltas sobre 175 metros de carris, ali para a Senhora do Rosário. Tinha 2,10 m de comprimento, 0,90 m de altura e 0,60 m de largura. Existia um tender de 1,35 m, as rodas motoras apresentavam 0,37 m de diâmetro. Não faltavam as vagonetas, que eram descobertas e em número de seis, cada uma com quatro assentos. A “experiência oficial” da locomotiva sucedeu em 1 de Julho de 1906 no caminho “conhecido por Debaixo dos Pinheiros ”.
Sabe-se que El-Rei D. Carlos nas suas regulares passagens pela estação fluvial do Barreiro, para e desde Vila Viçosa, muito gostava de trocar impressões com ferroviários e mareantes locais. (Não só com o então bem conhecido “Vergante”...). Mas o monarca não chegou a dar umas voltinhas por cá no pequeno comboio fumarento. De certeza, porém, soube do evento, muito badalado na imprensa.
Foi o monógrafo local Armando S. Pais que em 1944 publicou longo texto sobre o comboiozinho em vários números do semanário “O Barreiro”. Para isso obtivera dados de descendentes do hábil Manuel Gualdino (sendo um deles um deles o professor, desenhador e pintor artístico Américo Marinho, seu neto). O emérito barreirense António José “da Loura”, que fora chefe das oficinas locais dos Caminhos de Ferro, também foi dos que contribuiu. (Vide, no final, imagem em xilogravura deste barreirense). O presente texto também leva em conta o divulgado por A. S. Pais n´ “O Barreiro Contemporâneo III - Miscelânea” (1971) sobre Gualdino e uma centena de ferroviários. |
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Gualdino e colegas
Assim, nas festas municipais de 1906 (14 a 17 de Agosto) “estreeou-se”, no areal ao lado da Igreja do Rosário, o “comboiozinho do Gualdino”. (Este festivo meio de locomoção foi assim apodado pela população camarra). Hoje em dia, aquela esplêndica máquina quase se esfumou na lembrança dos barreirenses. Há que relembrá-la.
O nome completo do construtor foi Manuel Gualdino da Silva, nascido no Barreiro em 25-8-1865, sendo seu pai, de nome idêntico, natural de Palhais e moleiro de profissão. (O pintor Américo Marinho foi, como já dito, seu neto. A irmã de Gualdino jr., Esperança Rosa da Silva, casou-se com o merceeiro José Maria da Costa Mano, de Folques/Arganil. Foram os bisavós de quem aqui escreve).
O muito hábil serralheiro mecânico Manuel Gualdino (filho) trabalhou em várias fábricas, também nos CFSS (reparações de locomotivas), chegou a ter pequena oficina, que foi obrigado a encerrar por dificuldades financeiras. Por fim, entrou ao serviço da Sociedade Nacional de Cortiças, ali a dois passos da praia, onde se tornou notado por construir uma máquina nova de fazer rolhas. O patrão, Rafael Reynolds, concedeu-lhe empréstimo para despesas relativas à locomotiva que o operário idealizara a partir da revista inglesa “Railways Engineer” (1905). Na sua equipa de colaboradores graciosos há que realçar os dois ferroviários Manuel Henrique Paninho, carpinteiro, e António Joaquim Praça, torneiro. Manuel Gualdino, senhor de grande génio inventivo, tanbém construiu um fonógrafo, uma “máquina falante”.
Este nosso vinculado faleceu com apenas 48 anos, vítima da terrível tuberculose, em 1-4-1914. O Barreiro, terra de grandes artesãos da indústria, tem-se esquecido de incluir o nome do insigne artífice Manuel Gualdino – que não foi político - na sua toponímia. Será que poderemos ressarcir dessa falta, na sede do concelho, ou em Palhais? Aqui se apresenta uma singela sugestão ao cuidado da Comissão Municipal de Toponímia.
(A propósito: houve um atento fotógrafo – dos primeiros da vila - que eternizou imagens do comboiozinho e de seus construtores. Falamos de Mário da Costa Mano, sobrinho de M. Gualdino, e nosso saudoso tio-avô. A sua filha Maria Olga da Costa Mano legou tais imagens à Câmara do Barreiro). |
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Na imprensa. E onde pára o veículo?
Como dito atrás, a imprensa muito se interessou na altura pelo pequeno comboio vindo ao mundo no Barreiro. Por exemplo, n´ O Século – segunda consta em 1906 - lê-se: “Esta máquina é um trabalho industrial e de arte, talvez o melhor que se tenha produzido em Portugal, attendendo às condições em que foi feita, sem as ferramentas próprias necessárias e n´uma pequena oficina, attendendo que o seu auctor não frequentou escola alguma, não é engenheiro, e apenas um operário muito modesto e muito inteligente...” (Vide, neste trabalho, reprodução mais completa desta notícia).
O comboiozinho também esteve presente em 1907 nas Festas do Barreiro. Andaria em bolandas por feiras no País. Em tempos bens idos chegou a circular nos jardins do Palácio de Cristal, Porto. Tem sido pertença de vários cidadãos. Durante anos esteve sediado no concelho de Oeiras. Que belo seria se - um dia - aquela tão notável obra de operários locais fizesse parte de acervo ferroviário exposto no Barreiro... |
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