“Zé da Loura” - Artigo no Jornal do Barreiro de 24-12-2002
Agora algumas citações de artigo dado à estampa em 2002 por quem aqui escreve:
Nosso pai colheu junto de “Zé da Loura” preciosos elementos sobre o trabalho e o associativismo das derradeiras décadas da Monarquia e princípio da República. A título de exemplo: na pag. 132 de “O Barreiro Antigo e Moderno” consta a relação fornecida por António José, das derradeiras 11 bateiras (a Zabumba, a Choca, a Bolacha, a Patarata, etc), com nomes dos proprietários, que na época de 1875 exerciam a faina da pesca a partir da praia do Barreiro.
Um dia sucedeu um tremendo desaguisado entre António José e uma Direcção dos Franceses. O grande sócio-artista afastou-se com profundo desgosto. Mais tarde deram razão a António José, mas o triste incidente nunca foi sanado. Tornou-se “tabu”, de futuro ninguém ousava tocar no assunto na presença de António José, que também sabia mostrar sarcasmo ou verrina. Aderiu à colectividade rival, os Penicheiros, onde ainda colaborou durante muitos anos.
Recordações de um afilhado, e de mais barreirenses
António José da Costa, para muito “Evaristo” (nome do pai), é nosso antigo, simpático conhecido. Há anos abriu-nos recordações suas respeitantes a António José “da Loura”. Tomamos a liberdade de publicar excertos, quase todos nunca divulgados por escrito. “Evaristo” nasceu também num 13 de Março, viveu no mesmo primeiro andar, passava mais tempo na casa do padrinho que na própria casa. O prédio de gaveto ainda lá está, a dois passos da escadaria dos Penicheiros. As janelas da casa de António José “da Loura” davam para a Rua Câmara Pestana, ao passo que as da família do afilhado Costa estavam viradas para a Rua Almirante Reis. Uma varanda era comum.
Realmente, António José da Costa, afilhado do “Zé da Loura” muito gentilmente nos concedeu acesso a documentação que pertenceu àquele vulto de outrora, documentação essa constituída por fotografias, manuscritos de linda caligrafia e notáveis desenhos de máquinas concebidos pelo mesmo. Sentimo-nos na obrigação de divulgar a existência de tal espólio, que desconhecíamos. Com que curiosidade e prazer manuseámos o material, que pertencera a alguém que também manteve fortes laços de amizade com familiares nossos. (Sim, nosso avô materno José Maria da Costa Mano, merceeiro da Rua Aguiar, e uma prima, foram seus afilhados de baptismo).
“Zé da Loura” nunca teve em casa energia eléctrica ou rádio. Organizava uma tertúlia semanal todas as quintas-feiras, das 20 h até à meia noite. Estavam presentes até sete indivíduos, antigos aprendizes dos C.F.S.S., debatendo-se temas de cultura geral, vida social e política. O nosso entrevistado assistiu, durante bons anos, a tais sessões, mas “sem abrir o bico”. O anfitrião dizia-lhe: “Quando os homens conversam, as crianças não se metem…”. Por vezes também se reuniam lá em casa amigos de maior projecção social. Mantinha fortes amizades, por exemplo, com o dr. Manuel Pacheco Nobre ou o farmacêutico republicano José Luís Costa. Não faltavam os repastos, com os tão elogiados cozinhados da esposa, D. Gertrudes.
Graças à boa reforma, António José (da Loura) levava vida desafogada, quase até ao fim. Com as “moedas grandes” um dia recebidas do Rei D. Luís começara a comprar livros. Um dia saiu-lhe um grande prémio da lotaria. Possuía os volumes da grande “Enciclopédia do Povo” (que muito estudou) e até a colecção completa de Jules Verne. Muitos jovens iam regularmente a casa do “padrinho” (cuja porta ostentava enorme e barulhenta sineta) a fim de buscar ou devolver aqueles livros vermelhos das aventuras de Jules Verne. Era o próprio António José que incitava tais leituras à miudagem. As decorações lá no primeiro andar eram bem ricas. Havia um grande espelho de Veneza e uma bela máquina de costura, segundo consta da marca Pfaff.
As irmãs, nossas primas, Olga Costa Mano e Esperança Mano Padrão também nos evocaram bastante do “Zé da Loura”. Até aos princípios dos anos 30, António José construía no Largo Casal, por altura dos Santos Populares, tronos de madeira de vários degraus. Lá no alto era o Santo António. Estas nossas primas ainda guardavam formosos calendários feitos pelo artista, tal como objectos de salinhas de cartolina, com palhinhas, tudo colado com cola de sapateiro (farinha, água e vinagre) que António José fazia para oferecer às afilhadas.
Também falámos com José da Conceição, que bem conheceu António José. Sua esposa era afilhada lá de casa. Recordou-nos os pratos de barro enfeitados com pedaços de louça, os leques com caras bonitas, as bandeirinhas de esticar próprias para ornamentações. Contou-nos o seguinte episódio, que nos abstemos de classificar. António José e D. Gertrudes eram muito amigos. O facto de ele ser republicano e ela monárquica em nada o impedia. Combinaram cada um levar a sua bandeira para a última morada. Aconteceu, porém, que por engano, puseram a bandeira monárquica no esquife de António José. D. Gertrudes faleceu depois. Então, ela levou o estandarte republicano.
O casal António José e Gertrudes Maria Marques não teve descendência. Diz-se que a empregada lá de casa, analfabeta, que ficou com muito do legado, vendeu a quilo, a alfarrabistas de Lisboa, muitos dos raros livros, que também incluíam primeiras edições de Camilo. O insigne ferroviário barreirense foi homem de entrega, um artista benemérito. Há poucos anos, o seu nome passou a fazer parte, com a maior justiça, da toponímia da cidade. |
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