Herdámos, com o sangue, o apego à escrita na imprensa. (Mas não para trechos de ficção ou para a poesia…). Nosso progenitor salientou-se como colunista e publicista, como seu irmão, e ainda mais um primo direito. Nosso bisavô materno assumiu-se como editor do primeiro jornal saído no Barreiro, ano 1898. (Acentue-se que nosso pai se destacou também como o segundo historiador das origens e do pulsar do Barreiro. Quatro grossos volumes monográficos atestam-no, saídos de 1963 a 1971, tidos como dos melhores do seu tempo a nível nacional. E nós honramo-nos em ter colaborado para “O Barreiro Contemporâneo II” no tocante aos dados referentes à quase heróica vertente desportiva cá vivida. Possuímos a prova escrita do que afirmamos…).
Desde sempre juntámos, compusemos elementos sobre personagens relevantes da nossa terra. Para o presente capítulo da nossa vida escorámos em nossas memórias, em notícias da imprensa local e lisboeta, em relatos de nossos familiares (quase todos já idos), em mais de duas centenas de nossas entrevistas a personagens mais idosas, vindas a lume em dois semanários locais, em especial desde 1997. O material obtido tinha obrigação de ganhar certa robustez. Agora resumimo-lo, compilámo-lo, agregámos – sempre que possível – bom número de fotos, em Artbarreiro.com. Caso alguém detecte alguma falta, ou sinta ter que apresentar qualquer sugestão, queira fazê-las chegar ao conhecimento de quem aqui assina.
Lista Negra (ou Blacklist)
Alegadamente existe no Barreiro, a nível oficial, uma lista negra de nomes de pessoas vinculadas ao Barreiro de grande relevo em épocas anteriores à presente República, que parecem ter “caído em desgraça”. Que, a despeito de muito apreciáveis acções ou obras de que os habitantes da vila tanto beneficiaram, não lhe foram concedidos, mesmo a título póstumo, galardões de reconhecimento, seja em diplomas, seja na toponímia. Claro que não poderá ser confirmada a existência de tal lista negra (se se quiser, blacklist). Mas, para muitos, é ponto assente que tal “rol” existe.
Avançamos apenas um caso… O daquela senhora natural do Barreiro, poetisa nata, autora de bem extensa e linda colecção de poemas (boa parte sonetos). Durante décadas publicou suas trovas em especial no “Jornal do Barreiro”, também em publicações de outras localidades. Muito cantou ela temas barreirenses, como os trabalhadores, os lugares da vila, as fábricas, os moinhos, o Tejo, as Festas da Sra. do Rosário, numerosas figuras locais (e nacionais). Temos conhecimento de ela ter sido proposta mais que uma vez para prémios autárquicos locais. Foi rejeitada. Recebeu distinções de outras terras, mas não da sua terra natal… Faleceu idosa em 2007, após prolongada doença, sem ter sido distinguida – tão injustamente – com uma honra barreirense. Ela nem sequer foi de “políticas”. Terá a senhora – pergunta-se – composto versos a alguma personalidade a quem uns tantos consideram nunca o dever ter feito? Quem saberá responder? E se a resposta for positiva, terá invalidado todos os belos momentos, as alegrias, que os seus poemas, os seus livros, proporcionaram a gerações de barreirenses? A alguns parecerá que sim. Uma tristeza camarra…
Mas atenção… Se aquilo que aqui deixamos registado sobre a alegada lista negra não possuir qualquer fundamento, se tudo constituir não mais que resquícios maldosos, insinuações totalmente desprovidas de veracidade, então pedimos mil perdões. Mea culpa, também pelos outros que pensam do mesmo modo que nós. Mas seria, talvez, positivo, se laborássemos em erro… Nesse caso, que os dados contidos em nossas resenhas biográficas, presentes e futuras, destes VINCULADOS AO BARREIRO, venham um dia a ser úteis à memória daquela poetisa e de outras figuras barreirenses de muito gabarito. Para que elas venham a receber - pelo menos postumamente, claro - os galardões a que fizeram jus.
Que aqui fique assinalado que a escolha das figuras incluídas nos VINCULADOS AO BARREIRO não dependerá das suas ideologias. Para nós, a idoneidade é, de longe, mais relevante.
Carlos Alberto Mano da Silva Pais
(Nascido no Barreiro no dia de São João de 1940) |